Experimentem, degustem, divirtam-se!

Experimentem, degustem, divirtam-se!
Conheçam livros de ficção e fantasia com tempero nacional: Agridoce, Cítrico e Paganus.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Conto: Aprender para dominar.

Olá!!
Hoje, trago para vocês outro conto meu que foi publicado na antologia Draculea, o livro secreto dos vampiros em 2009: Aprender para Dominar.
Aprender para dominar. Ela lambe os lábios rubros e lascivos lentamente. Degusta o néctar agridoce que há poucos segundos penetrava-lhe o corpo, fazendo-a extasiar-se e gemer de puro prazer. Suspira e fecha os olhos lentamente. Os cílios castanhos velando os olhos que até então se coloriam de vermelho e eram capazes de aprisionar, de render, de dominar e de levar à morte a deliciosa vítima. Lentamente ela puxa, através das pernas longas, macias e pálidas, a calcinha. Apenas alçando ligeiramente o corpo sobre os lençóis de linho. Preguiçosamente se senta e passa o vestido cor de rosa pela cabeça. As saias rodadas roçam na pele gélida e rígida do corpo ao lado. Levanta-se, erguendo os braços num espreguiçar sensual e o vestido desliza até atingir o local exato onde deverá ser amarrado. As fitas pendentes são violetas e tocam, como a um cacho de uvas delicado, a pele cálida e branca das costas tentadoras.
- Pode amarrar para mim, por favor, querido? – ela sorri como se fosse simples o ato de atar aquelas fitas e pressioná-las contra a pele de seda, sem que todo o corpo de um pobre mortal não tremesse completamente.
Ela levanta os cabelos cor de cobre que até então caíam em suaves cachos sobre as costas desnudas, expondo um pedaço de tentadora carne doce do pescoço delgado.
Os passos inseguros e o corpo trêmulo dele levam-no da poltrona onde estivera encerrado como observador até a tarefa ao mesmo tempo excruciante e deleitosa. Ele segura as fitas violeta e as começa a puxar, primeiro com timidez e delicadeza, depois com avidez e força. Ela leva a mão em direção aos seios túrgidos e ajeita o vestido exibindo o colo que por si só poderia levar um homem à loucura. Então solta os cabelos que roçam com displicência, mas queimando intencionalmente as mãos do afortunado e ele geme de prazer antes de cruzar as fitas no nó que selará momentaneamente aquele templo ao prazer e à luxúria. - Obrigada... – ela se vira e passa um dos dedos delicados pelo rosto pálido e trêmulo do encantado mortal que mal consegue piscar. – Amanhã lhe ensinarei mais... – a voz doce e musical dança por seus ouvidos e ele não consegue proferir palavra alguma enquanto a vê se afastar como se adentrasse entre as brumas perfumadas do campo.
Ele sai do fétido hotel, deixando atrás de si, sem remorso, o corpo do objeto da experiência sobrenatural. Já em seu pequeno esconderijo pensa se não estivera usando ópio demasiadamente nos últimos dias. Deita-se na esperança vã de não sonhar...
Um baque surdo de porta o desperta com um salto. No colo o caderno no qual anotara suas últimas descobertas e que exibia manchas que a pena deixara sobre o papel. Como que por instinto, ele passa a mão pelo pescoço para conferir-lhe a integridade e suspira com enorme alívio. Passa a mão vigorosamente pelo rosto, mal percebendo que deixa na pele marcas da tinta vermelha com a qual escrevia. Fecha o caderno onde se lê na primeira página: Aprender para dominar.
O título, provisório e tosco, não traduzia a maravilha daquela aprendizagem. Levanta-se e se dirige à bacia de louça com água fria e joga em seu rosto um pouco de lucidez. Mirando-se no espelho pensa na descoberta mais recente. Ela nunca se olha no espelho. Embora achasse que tamanha beleza não seria refletida à altura, sabia como as mulheres adoravam aquela peça encantada que ela desdenhava.
Tira a camisa jogando-a sobre a cama e recorda de outra descoberta importante. Não a deixe tocá-lo por um segundo sequer, com as mãos delicadas, com seus dedos longos. Havia constatado que após o toque de seda, perdiam-se os argumentos, a fala, a coerência, principalmente se os dedos deslizassem pelo peito e subissem suavemente até o pescoço, como ondas delicadas de prazer que tiravam a lucidez de qualquer mortal que tivesse uma gota de sangue correndo dentro de seu corpo. O toque aprisiona, amortecendo os sentidos, tornando os membros letárgicos e entregues.
Ele coloca uma camisa limpa e a abotoa com impaciência. Olha-se no espelho e encontra marcas de ausência de sono sob seus olhos. Pensa em outro detalhe que conhecera. Não a olhe nos olhos. Nunca. Pois depois de tal contato, perderá a noção de espaço e de tempo. Será consumido pelo brilho de brasas que prometem prazer incomensurável e inimaginável. Os olhos encerram os sentidos que ainda pudessem estar ativos após o toque. E então só se enxergarão imagens luxuriosas a começar por desnudar totalmente o corpo curvilíneo.
Passa a mão pelos cabelos ajeitando-os presos sob a nuca. Abre a cortina e os raios de sol cruzam os vidros da janela desenhando linhas amarelas pelo quarto. Ele então suspira e pensa em outra anotação que fizera. Ela nunca sai ao sol. Pensou que talvez tentasse preservar a alvinitente pele. E até concordava que seria um ato criminoso macular aquelas faces com algum tipo de rubor. Ela saía assim que a lua despontava, o que conferia um brilho raro àquela aparência etérea e irresistível de anjo.
Pega o caderno fechado e o encerra numa capa de couro escurecida, depositando-o debaixo do braço tal qual uma muleta que possibilita o caminhar seguro ao claudicante. Fecha a porta e pensa em seus escritos. Não a convide para entrar em sua casa. Era importante saber que se abrisse as portas da entrada de sua casa, estava abrindo as janelas para sua alma e a depositando entre lábios macios e ávidos. Sai para a rua movimentada. As carruagens passam com sons angustiantes sobre o cascalho, provocando um latejar incômodo na cabeça. Caminha pelo calçamento sujo e úmido. Pensa no detalhe do caminhar. Ela caminha como se seus pés não tocassem o chão e quando percebemos já está a nos encurralar. Não deixa escapatória, fazendo isso com a mesma suavidade com que uma pena que se solta do pássaro desliza para o chão. Como se uma dança lenta e sensual ocorresse sem que pudéssemos participar por desconhecer os passos.
Entra no bar e está sedento, seus lábios estão ressequidos e ávidos por um líquido que reconforte. Uma taça elegante é depositada diante dele sobre o balcão. Os lábios prevêem o gosto do néctar. Então, lembra-se de uma das aprendizagens mais importantes. Não deixe que os lábios macios, generosos e repletos de pecado e promessas se aproximem. Se aqueles lábios úmidos e cálidos se aproximam de seus ouvidos, proferem palavras doces que provocam a sensação de flutuar, um pulsar exagerado do coração e uma sensação latejante em nossa intimidade, que antecipa um prazer deleitoso. A sensação obriga ao escolhido fechar os olhos, entreabrir os lábios em busca da fonte prometida e jogar a cabeça para trás como que na possibilidade de atingir o céu... e então a dica mais valiosa e vital deve ser seguida. Não a deixe encostar os lábios úmidos, quentes e sequiosos em seu pescoço. Nunca. Ali, no pulsar de sua energia, na ilustração de seu desejo é que se concentra a fonte de prazer para ela. É através da carne firme e latejante de seu pescoço que ela o domina completamente. Ela o toma para si, primeiro com um leve roçar dos lábios, como que para degustar o buquê e avaliar a qualidade do que você tem a oferecer, depois para, ao abrir os lábios, exibir dentes perfeitamente brancos e longos, capazes de penetrar-lhe e lhe tomar a energia, de sugar-lhe as vontades, de controlar o bater de seu coração. Enquanto os lábios vigorosos sugam-lhe o elixir da vida, a encantada vítima parece não sentir dor, não ter pensamentos ou vontades. Não resiste em favor do êxtase.
De volta à rua, dirige-se à casa de seu empregador. Bate à porta pintada de vermelho, diante dela um crucifixo de bronze e uma coroa trançada de dentes de alho. Ele sorri. Pensando em como ela riria com deleite daqueles adornos. Ninguém atende. Ele empurra o embrulho com o caderno para dentro da casa através da portinhola. Vira as costas e volta para a rua. Espera que suas descobertas ajudem ao velho Abraham a escrever seu livro ou a se defender do perigo que acredita rondar pelas ruelas estreitas da cidade. Sorri. Precisa ir para casa. Tem um encontro ao despontar da lua com uma dama de vestido cor de rosa. Já abrira a porta para ela, já a olhara nos olhos, já a deixara tocá-lo, já ouvira as palavras de mel... Ela prometera que ele encontraria o prazer sobre o qual não haveria descrições possíveis. Estava ansioso e se lembrou da última dica que escrevera. Não se apaixone por ela...

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