O tema: bullying e suicídio. Não há que se olhar de maneira romantizada, mas sim tentar olhar pelos olhos dos jovens e adolescentes que clamam para serem vistos e ouvidos.
Hoje, todos dizem que o tema precisa ser discutido, trabalhado... mas o que é um texto nacional, não é mesmo? ;)

Então, para vocês conhecerem, segue o conto:
A DANÇA
As luzes suaves e azuladas do salão pareciam
pulsar diante de seus olhos. Nunca estivera ali antes e a expectativa fazia
suas entranhas contorcerem-se em agonia.
- Senhorita? – uma mão estendida se esticou em
sua direção. O olhar era encantador e o sorriso, cativante...
Diane
pensou um pouco olhando para mão estendida, para os dedos compridos, para a
pele suave, macia... Nunca ninguém a convidara assim, era irresistível...
Ela
sabia que estava corada e o coração parecia palpitar fora do peito, freneticamente,
desigualmente.
Sentindo
as mãos trêmulas, segurou a mão estendida. Seus pés deslizaram pelo salão como
se caminhasse sobre nuvens. Momentaneamente sentiu uma vertigem, mas a mão era
forte e transmitia uma segurança como ela nunca sentira antes.
De
repente, todas as chacotas das meninas da escola, o escárnio, o desdém dos
rapazes que faziam questão de ignorá-la, tudo ficou opaco, vazio, ridículo...
Diane
sorriu. Seu ouvido preencheu-se com a música suave... ela adorava aquela
música! Sentia-se envolvida pelo braço forte e seu corpo flutuou desfrutando
daquele perfume de flores.
O
condutor a levava com maestria, uma das mãos firmes enlaçava sua cintura, numa
carícia quente, sensual, enquanto a outra segurava em sua mão fazendo seus
pulsos latejarem de excitação... ela estava totalmente entregue às sensações.
Nunca
dançara antes, nem mesmo dentro de quarto, refúgio para a dor, cárcere onde
escondia sua raiva, angústia e frustração. Não queria ser popular, só queria
ser aceita.
Inúmeras
vezes olhara-se no espelho e tentara convencer a si mesma que não era
invisível, ou pior, execrável! “Você é bonita, Diane. Tem seus talentos!
Ninguém é perfeito! Nem mesmo a Alice, aquela que é amada e admirada por
todos na escola, a deusa...”. Procurara desesperadamente por defeitos naquela
“exibida, oferecida”, mas sempre terminava odiando a própria imagem. “Olha
essas orelhas! E esses dentes! O cabelo escorrido, horrível! Onde estão os
seios perfeitos?”
Agora
era levada nos braços daquele maravilhoso exemplar de homem, lindo, sensual,
forte e com ele rodopiava pelo salão. Ela nem sabia ser capaz de dançar! Mas
ele a conduzia, a ajudava, não ria dela ou de sua insegurança... Todos a
invejavam, olhavam-na como se fosse uma princesa de contos-de-fada, como se
fosse a rainha do baile.
Finalmente
ela sorria. Um sorriso guardado desde que entrara na adolescência, cobrado pela
família, mas sempre ignorado por seus pares.
Leveza...
a dança da sua vida! Seus pés saíam do chão...
- Está pronta! – a voz doce acariciou seus
ouvidos. – Essa música é sua Diane... eu te conduzo... – ele sorriu e ela viu
estrelas nos olhos dele.
- Obrigada! – Diane falou sentindo o suspiro
preso no peito.
Diane
não ouviu quando sua mãe, desesperada, abriu a porta do quarto. Não percebeu o
horror e dor nos rostos de todos de sua família. Ela não sentiu o mar de sangue
à sua volta, nem os cortes profundos que infringira em seus próprios pulsos...
O
pai, chorando, retirou os fones de ouvido que tocavam a música favorita... Atônito,
percebeu o leve sorriso nos lábios pálidos de sua filha que jazia morta sobre
os lençóis cor-de-rosa...
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