Experimentem, degustem, divirtam-se!

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Conheçam livros de ficção e fantasia com tempero nacional: Agridoce, Cítrico e Paganus.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A VOZ E A PENA

Oi gente, este meu artigo foi publicado em 2013 na revista DIVAS.
Ele é parte de um de meus projetos para o ano que vem. =)
Vou dividir com vocês o artigo e gostaria de saber a opinião de vocês, tá?
Beijos!
A Voz e a Pena
“Eu pegava um livro de modinhas que ele tinha me presenteado. O livro era intitulado “A Lira do Capadócio”, e eu ficava virando e revirando as páginas sem saber ler, soletrando alguma coisa que eu aprendera furtivamente com meu irmão, que vinha à noite aprender a ler. Eu ia espiar na porta para ver se apanhava alguma coisa que ele estivesse ensinando para o aluno, mas assim que me pressentia virava-se para trás e me mandava fazer crochê ou costurar."
Este depoimento está no livro autobiográfico de Clotilde do Carmo Dias, minha tia-bisavó, de quem me lembro como uma simpática senhorinha de cabelos brancos. Nascida em 1902, escreveu seu livro Aluna do Telhado em 1972 e presenteou meus pais com um exemplar. Durante muitos anos, o livro era apenas uma história na estante, mas quando o redescobri me emocionei com toda a essência, a história e a luta cultural de Clotilde.
O que antes em minha percepção infantil me escapara foi, em minha maturidade, percebido e me atingiu como um chicote. Clotilde foi uma menina curiosa que foi privada da aprendizagem da leitura e da escrita por que não era um direito concedido às mulheres. A vontade de decifrar as modinhas de um livro e a ânsia por compreender as letras e seu significado a fez se esconder atrás de portas e a subir no telhado, espiando entre as telhas, para furtar o conhecimento de que era privada.
A história de Clotilde é apenas um fragmento da luta que as mulheres travaram e ainda travam para que sua voz seja ouvida. Clotilde morava no interior, trabalhava em uma fazenda e não era seu direito se interessar pelas letras. Talvez, se fosse de família abastada, Clotilde teria frequentado algum internato ou mesmo aprendido com uma preceptora, mas ela era uma garota que tinha que lutar na lavoura para ajudar a família a sobreviver.
A vida simples de Clotilde, entretanto, era só um detalhe, por que em seu âmago ela era uma exploradora e sabia que as letras lhe dariam uma liberdade que não poderia ser usurpada nem pela cinta de seu pai se acaso descobrisse essa sua paixão. Clotilde teve sua história rabiscada com suas letras inseguras depois de uma vida tentando aprender a ler e escrever. Seu livro não teve editora, ela o publicou independente e foi, na época, ajudada por um apresentador de TV (Silvio Santos), que financiou a primeira e única tiragem de seu livro. Um autor, tocado pela história de vida contida naquelas páginas, a auxiliou a lapidar o texto, mas não tirou dele a identidade de sua autora. É possível imaginá-la contando aquela história. A sua voz pode ser a de muitas mulheres que, assim como ela, tiveram uma vida de luta, amores, decepções, dores e alegrias. A voz e a pena há muito pouco tempo passaram a pertencer às mulheres como direito. Durante séculos a literatura socialmente aceita produzida por mulheres eram seus diários e cadernos de receitas, que Lygia Fagundes Telles chama de cadernos-goiabada. Muitos jamais perceberam que aqueles cadernos eram recheados de sonhos, histórias e poesias, criações literárias repletas de emoção e que expunham as forças e fragilidades da alma feminina.
Grandes escritoras se destacaram por sua rebeldia, por desejarem que seus escritos fossem lidos por homens e outras mulheres. Elas expunham a necessidade cidadã, política, eram vozes lúcidas, que tinham objetivos e acabaram por mobilizar e sensibilizar leitores. Mas, além dessas ilustríssimas há aquelas quase sempre anônimas, que se dedicaram a registrar seus escritos em pequenos cadernos, a colocar em linhas mal escritas e íntimas seu cotidiano, suas vidas, seus sonhos e pesadelos... Mostravam que não eram vidas vazias, como o irmão de Clotilde supunha quando a mandava ir fazer crochê ou costurar ignorando seu apetite voraz pelo conhecimento do mundo que ia além das prendas do lar.
O interessante é perceber que, na história da literatura, a vida dessas mulheres rendeu obras famosas, mas a voz que se ouvia era de homens que as desnudaram usando a pena que lhes era negada. Autores como Camilo Castelo Branco, Machado de Assis e José de Alencar, exploravam a riqueza de emoções e histórias femininas, mas não eram as vozes das mulheres, mas suas representações e, por mais admiráveis que sejam essas histórias, ainda representam a recusa de colocar a pena das mãos das protagonistas que, somente há pouquíssimo tempo, puderam assumir o controle do instrumento de escrita e de sua própria voz.
Hoje, o mercado literário têm acolhido as mulheres, embora com relutância em algumas áreas como a Fantasia e o Terror, por exemplo, mas muitos já perceberam que, com uma pena na mão, a voz de uma mulher tem um timbre deliciosamente envolvente. Que as Clotildes não precisem mais subir em telhados para terem acesso à maravilha da escrita, mas que os escalem apenas para terem uma visão privilegiada da paisagem aos seus pés.
Simone O. Marques
Artigo publicado na revista DIVAS, 2013